Games | 14 de junho, 2018

Por que 2017 foi o melhor ano para os jogos de tabuleiro modernos?

Diversos lançamentos, recordes em eventos e campanhas de sucesso fizeram um ano incrível para o board gamer

Tenho certeza que você reparou o quanto o mercado cresceu em 2017. Muitos títulos novos chegaram, tanto lá fora quanto aqui no Brasil, editoras surgiram (é verdade, algumas sumiram), outras se reposicionaram, novos designers chegaram com grandes trabalhos e muita, muita coisa bacana aconteceu. Pra mim, o cenário indica que 2017 foi o melhor ano para nós, jogadores, consumidores, mas também para a indústria dos jogos analógicos. E como pode ser isso, com o crescimento da indústria do entretenimento indo de vento em popa, tanta novidade no meio digital e tanta coisa acontecendo na economia mundial?

Alguns dos principais lançamentos de 2017 de acordo com o ranking do site BoardGameGeek. Sentiu falta de algum?

Já comentei em outros textos que o mundo dos board games parece não ter sido tão afetado por todos os outros fatores ao seu redor. Na verdade, toda a indústria do entretenimento vive uma fase excelente. Nunca se viu tanto filme batendo recorde de público e arrecadações como se tem visto agora. Jogos digitais vendem horrores antes mesmo do lançamento. Mesmo livros continuam em alta, agora talvez ainda mais forte do que outrora. O fato é que, de forma geral, se gasta mais com lazer e entretenimento nos últimos tempos. No mundo dos jogos de tabuleiro ainda há outros fatores influenciando positivamente, como você pode ler aqui e aqui.

Mas uma coisa é ir bem, outra, completamente diferente, é ir incrivelmente bem. Ainda não temos dados concretos sobre valores de arrecadação no ano, mas podemos tirar uma base pela quantidade de lançamentos e em relação aos valores arrecadados por board games em campanhas de financiamento de sites como Kickstarter e Indiegogo. Jogos como Kingdom Death: Monster7th Continent e Gloomhaven encabeçam a lista dos projetos com maiores financiamentos do ano.

Gloomhaven: segunda edição do jogo arrecadou cerca de 4 milhões de dólares. Imagem: BoardGameGeek.

Mesmo no Brasil, diversas dessas campanhas tiveram ótima arrecadação e foram financiados nas primeiras horas. No geral, a maior parte dos projetos saiu do papel, principalmente agora no fim do ano, com uns 5 ou 6 projetos sendo financiados, mesmo simultaneamente (e praticamente concorrendo um com o outro). Ao todo, 12 projetos nacionais chegarão em breve ao mercado depois de campanhas bem sucedidas de financiamento coletivo, somando mais de 600 mil reais arrecadados. Números ainda tímidos em comparação com os números do mercado internacional, mas que são bastante relevantes tendo em conta o grande preconceito que existe entre os jogadores em participar de campanhas de crowdfunding e pré-vendas.

Levantamento feito pelo Cacá, do canal E aí, tem jogo?.

Além de tudo isso, é claro, temos visto o aumento no número de lojas, sejam físicas ou online, e luderias, locais onde os jogadores podem ir para jogar, conhecer e comprar jogos, além de cafés especializados em jogos, os board game cafe. Esses últimos, talvez os com maior relevância hoje, trazendo jogadores antigos e novos para as mesas, mostrando ao grande público que jogar jogo de tabuleiro não é coisa de nerd ou de criança.

UM ANO DE MUITOS LANÇAMENTOS

Numa consulta rápida ao site BoardGameGeek podemos encontrar 3422 jogos lançados em 2017, sem contar expansões. É muito mais do que qualquer um de nós consiga consumir. Na vida. Claro que muitos desses que estão lá cadastrados podem ter tido tiragens baixíssimas, terem sido lançados somente num mercado (só na Indonésia, por exemplo) e nós nunca vamos ver sequer a capa desses jogos. Mas vamos focar no que rolou por aqui…

No Brasil, cerca de 210 títulos foram lançados nesse ano, muitos desses títulos mais antigos que só agora ganharam versão nacional, é verdade. Mas é quase o dobro de lançamentos de 2016 — 124 títulos lançados no Brasil, de acordo com registros do site Ludopedia — e muito maior que os números de 2014 e 2015 — 58 e 82, respectivamente. E olhe só, ainda nem começamos 2018 e já existem 95 jogos anunciados por editoras nacionais para o próximo ano. Será que dá pra ter tudo isso na estante?

E os melhores do ano? Bom, eu não me atrevo a fazer essa lista, uma vez que não joguei nem 1% do que foi lançado em 2017. Tenho meus preferidos dos que joguei, mas tem gente com mais know-how do que eu pra fazer esse trabalho. Você pode encontrar facilmente os melhores de 2017 no YouTube, e também nos links abaixo:

OS PRINCIPAIS EVENTOS DO MUNDO

Os dois principais eventos do mundo dos board games, a GEN CON e a SPIEL, bateram seus recordes de público nesse ano. A feira estadunidense, que acontece em Indianapolis e celebrou seus 50 anos, já é um dos principais eventos da cidade que também recebe a famosa corrida da Fórmula Indy(aquelas 500 milhas). O crescimento foi tão grande de 2016 pra 2017 que os organizadores da GEN CON precisaram alugar também o espaço ao lado do pavilhão de eventos que nada mais é do que o parte do Lucas Oil, o estádio do time de futebol americano. Foram 60 mil visitantes durante os quatro dias de evento em agosto deste ano.

Já a feira alemã que ocorre sempre no mês de outubro, a SPIEL, bateu seu recorde de visitas únicas num mesmo dia — 44 mil pessoas no sábado, terceiro dia do evento — além de chegar à 182 mil visitantes somando os 4 dias da feira. Uma baita marca, diga-se de passagem. Eram cerca de 1100 exibidores, de 51 países diferentes, E você pode ver minhas impressões do evento nos textos aqui do canal, na série especial sobre a SPIEL 2017, clicando aqui.

182 mil pessoas visitaram a SPIEL esse ano.

Também nos Estados Unidos ocorreu esse ano a primeira edição da PAX Unplugged, evento oriundo da tradicional Penny Arcade Expo, séries de convenções de games já bastante tradicional no país. O evento já chegou com pompa e nome grandes e tem tudo para entrar no hall de mais importantes eventos do ano para o mundo dos tabletop games. Ainda no território estadunidense, a Origins Game Fair, a BGG.CONDice Tower Con e diversos outros eventos tiveram participação notável.

Mas em outros lugares do mundo as feiras também ganharam força. No Reino Unido com a UK Games Expo, na Bélgica com a SPEL e na Holanda com a SpellenSpektakel, hoje as grandes feiras na Europa, ao lado da SPIEL, além do aumento no número de participantes, nota-se também o maior número de deslocamentos das editoras para estarem presente e lançar jogos para esses mercados.

No Brasil também houve um enorme destaque para os jogos analógicos nos principais eventos do país e até mesmo na CCXP, a versão nacional da Comic Con. Por lá, o pessoal pôde conhecer alguns jogos das editoras Galápagos e Redbox, por exemplo. Além disso, o Diversão Offline, evento sobre o qual a gente comentou aqui, teve uma de suas melhores edições, com participação em peso das principais editoras nacionais que aproveitaram o evento para fazer anúncios de lançamentos no decorrer do ano de 2017 e também para 2018. Sem dúvida alguma o principal evento do país, mesmo que ainda muito focado no eixo Rio-São Paulo, o evento mostrou que tem relevância para o mercado e que pode atrair muito mais público se mudar sua estrutura para receber de fato todos os jogadores do Brasil, tal quais os eventos de porte nacional e internacional lá de fora.

BOARD GAMES NA MÍDIA

Não à toa o crescimento desse universo desperta cada vez mais atenção da mídia no mundo todo. Não só a especializada, mas também a mídia de massa. Diversos jornais e sites consagrados tem voltado suas atenções para o crescimento que o mercado vem demonstrando nos últimos anos e, em especial, em 2017. Mesmo aqui no Brasil, diversas reportagens tem apontado o alvorecer dos jogos de tabuleiro como uma saída de um entretenimento diferenciado, desconectado e descontraído. Só neste mês de dezembro, os portais UOL e R7, dois importantes portais brasileiros, trataram do tema em artigos, como você pode ver nos links a seguir:

Além disso, recentemente o programa Zero1, do apresentador Thiago Leifert, que passa na madrugada de sábado na Globo, também apresentou um programa sobre board games com a participação do Didi Braguinha, do podcast Matando Robôs Gigantes.

Até na Globo se falou de board games esse ano.

Claro que todo esse conteúdo não chega a se aprofundar tanto quanto a mídia especializada faz, mas é bem legal perceber o hobby atingindo outras frentes. Já lá fora, a coisa é bem mais aprofundada e grandes sites fazem matérias bem complexas avaliando o mercado e os valores envolvidos no mundos dos jogos de tabuleiro. Também reproduzi uma dessas matérias aqui no Deathmatch, analisando os financiamentos coletivos de board games dentro do Kickstarter, que você pode ler aqui. Outras matérias de sites internacionais e até mesmo do The Guardian analisam e sugerem jogos, ou comentam sobre os cafés, lojas, financiamentos gigantescos e etc. Veja alguns desses artigos abaixo:

PERSPECTIVAS PARA 2018

Ainda que 2017 tenha sido o melhor ano, as perspectivas são de que 2018 supere todos esses número. Isso porque o mercado está em franca ascensão e ainda há muito espaço para crescer. Há muitos lançamentos anunciados, editoras surgindo e todo um público ainda para ser alcançado.

A lista de jogos mais aguardados para 2018 no site BoardGameGeek, por exemplo, está recheada de coisas incríveis e de jogos que realmente fiquei empolgado. E ainda mais pela possibilidade de muitos desses jogos pintarem por aqui, traduzidos e nacionalizados pelas editoras tupiniquins, aumentando ainda mais a visibilidade do nosso mercado.

Além disso, novas conversas tem surgido para a realização de eventos cada vez melhores no Brasil. Isso nos traz também a possibilidade de mais gente comparecendo e conhecendo jogos de tabuleiro, bem como de mais gente comprando e ajudando o crescimento do mercado. Se os números de 2017 já estavam altos, a previsão é de números ainda maiores no próximo ano.

Meu sentimento é de que ainda estamos longe do ápice desse crescimento. Acredito que uma hora ele vai atingir seu máximo, é claro, e se estabelecer como um grande hobby, com grande público, mas também com eventos e mercado bem estabelecidos e com editoras fortes e com ainda mais designers lançando seus jogos. Mas acho que esse ápice está pra daqui uns 5 ou mais anos.

Uma frase que li recentemente e que diz muito sobre o que penso do nosso mercado é que “os melhores jogos ainda estão para serem feitos” (“the best games are yet to be made”, no original). E concordo muito com ela porque acredito que quanto mais o mercado amadurece, mais ele precisa se reinventar, se renovar e alcançar os públicos com coisas diferentes e relevantes. Acredito que esses próximos jogos, depois de tantos lançamentos e tanta inundação do mercado que temos passado nos últimos anos, terão que ser excepcionais para se destacar. E nisso, acredito que os melhores jogos podem surgir nos próximos anos. Talvez até mesmo alguns desses de 2017 já mereçam entrar nesse seleto hall de os melhores jogos já feitos. Por que não?

E você, o que achou de 2017? E quais suas expectativas para 2018? Deixe seus comentários aqui e vamos conversar sobre este grande ano para os jogos de tabuleiro modernos.

Texto originalmente publicado no Deathmatch em 25 de Dezembro de 2017

Anderson Butilheiro

Sobre o Autor

Boardgamer, gamer, fotógrafo amador, escritor e designer, não necessariamente nessa ordem

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