Cinema | 16 de fevereiro, 2018

Pantera Negra traz diversidade para o universo Marvel | Crítica

Pantera Negra traz diversidade e muita ação em um filme certo, na hora certa

Ao longo da construção de seu Universo Cinematográfico(MCU), a Marvel Studios se sobressaiu criando filmes divertidos que dão gosto de sentar no cinema para assistir com um balde de pipoca, trazendo dezenas de personagens das páginas da HQs e tecendo todos eles numa grande teia cinematográfica. O que ela não fez, no entanto, foram filmes que tivessem algum impacto. Os primeiros filmes do Homem de Ferro teceram algumas críticas acerca da exploração da guerra para lucro, e Capitão América: O Soldado Invernal tocou na temática dos problemas de se abrir mão de sua liberdade e privacidade em nome da segurança. Mas na maior parte das vezes, os filmes do MCU se preocupam apenas em mover a história a frente, com um toque de humor, na grande marcha em direção ao embate com Thanos que irá finalmente acontecer em Vingadores: Guerra Infinita.

Pantera Negra, dirigido por Ryan Coogler, é diferente. Ele não apenas é a Marvel, finalmente, abraçando a diversidade e representatividade, como também é um filme que entrega uma mensagem muito forte — e é capaz de fazer isso ao mesmo tempo que não se afasta de tudo que fez o MCU funcionar até o momento. É um filme divertido, especialmente bonito e com boas cenas de ação, mas ele também é um dos primeiros filmes com tons políticos e sociais do estúdio. E nesse processo a Marvel também acabou criando um dos filmes mais cativantes dentre todo o seu catálogo.

Pantera Negra começa logo após o fim de Capitão América: Guerra Civil, onde o Príncipe T’Challa (Chadwick Boseman) foi introduzido juntamente com seu alter-ego heróico que dá nome ao filme. Após a morte de seu pai, T’Challa retorna ao seu país de origem, para poder assumir o trono e as responsabilidades como rei de Wakanda, que é um mistério para o mundo exterior. Wakanda é um país incrivelmente avançado por conta de existir sob uma montanha de vibranium, o metal mais poderoso do universo Marvel, que é encontrado apenas nesse local. Para proteger a substância, Wakanda fingiu ser uma nação primitiva e pobre ao longo de sua história, escondendo seus avanços com a ajuda de um campo de força.

No entanto o traficante de armas Ulysses Klaue (vivido de maneira incrível por Andy Serkis) conhece os segredos de Wakanda e tem em sua possessão uma pequena quantia de vibranium que ele tem a intenção de vender no mercado negro. Junto com ele está Erik Killmonger (Michael B. Jordan, parceiro de longa data do diretor), um ex-militar americano com bastante conhecimento da cultura Wakandiana(?). T’Challa acaba em conflito com Klaue, o que leva a uma disputa pelo controle do trono de Wakanda, e com ele a anonimidade que seu país tanto valoriza fica em risco.

Em seus outros filmes, Fruivale Station e Creed, Ryan Coogler demonstrou a habilidade de trazer emoção e desenvolvimento de personagens para o primeiro plano, tanto no cenário indie ou enquanto trabalhava em uma grande franquia. E ele faz a mesma coisa novamente em Pantera Negra, T’Challa ainda está de luto pela morte de seu pai, e está dividido entre continuar com as tradições de Wakanda e a necessidade de olhar essas tradições de forma diferente para ser tornar o rei que ele aspira ser. Boseman interpreta o personagem de forma calma e pensativa, mas sempre pronto a tomar a frente como Pantera Negra caso seja necessário, mas em vários momentos ele se contenta em ser paciente e tomar ações mais comedidas do que se espera de um super herói.

O restante do elenco também está incrível, com cada personagem tendo seu momento para brilhar. Danai Gurira (a Michonne de The Walking Dead) chuta bundas como Okoye, a líder das Dora Milaje(uma força de elite de Wakanda), Lupita Nyong’o vive a espiã e interesse amoroso de T’Challa: Nakia. Forest Whitaker e Angela Basset adicionam um peso ao elenco vivendo um guru espiritual e a mãe de T’Challa respectivamente. Mas quem rouba a cena a todo momento é Letitia Wright no papel de Shuri, a irmã mais nova de T’Challa com grandes conhecimentos em tecnologia que podem rivalizar os de Tony Stark, é ela que provê todos os aparatos do Pantera Negra no filme.

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Mas mesmo entre esses excelentes atores, Michael B. Jordan se destaca como o vilão Erik Killmonger. O que começa como um personagem misterioso, conforme o filme progride se torna um vilão complexo com um passado triste que faz com que aconteça uma empatia com o espectador. Em outros filmes Kilmonger talvez se tornasse mais um vilão genérico com um passado que o relaciona ao herói. Mas Jordan adiciona uma camada de humanidade ao personagem, embora em um momento particular do filme ele tome uma atitude completamente fora do que se espera do personagem, o que diminui um pouco seu impacto, isso não estraga o filme como um todo.

E o que liga todas essas performances e faz com que o filme se destaque entre os outros do MCU é a representação de Wakanda. Embora hoje em dia seja fácil gerar tudo digitalmente, seja um planeta alienígena ou a torre de um grupo de heróis, nenhum desses lugares parece vivo. Wakanda me lembrou de como me senti a primeira vez que assisti Senhor dos Anéis e eu acreditei que Terra-Média existia em algum lugar(AKA Nova Zelândia), nessa mesma linha Wakanda é cheia de vida, com tradições antigas expostas lado a lado a grandes avanços tecnológicos, ela não é apenas um pano de fundo ela é quase como um personagem e a história, no fim das contas, é toda sobre ela.

Esse acaba sendo um dos pontos fortes do filme. Da forma como Pantera Negra abraça a diversidade e como a forma de vida de Wakanda é um dos principais pontos discutidos no roteiro, seria negligente do filme não adereçar essas questões de raça e disparidade econômica de alguma forma. Apesar de ser um tema delicado, ainda mais para ser tratado em um blockbuster como esse. O filme, no entanto, nunca se desvia desses temas, mas sim os incorpora na narrativa maior da trama, e de forma magistral, não recorre as saídas fáceis. Através de seus personagens são oferecidas duas visões extremas para o problema. Para T’Challa a solução é proteger o seu país e ignorar o mundo, o exterior e seus problemas. Já outros querem usar todo o poder e tecnologia de Wakanda para tomar o poder após anos de abusos e injustiças. Porém nenhuma dessas alternativas é realmente sustentável, o filme sugere que esses ciclos de violência só podem ser superados com orientação, educação e união entre os povos.

É inesperado ver tudo isso em um filme de super herói, que muitos esperam ser apenas mais um que se encaixe na típica fórmula do MCU, mas Pantera Negra funciona tão bem precisamente por causa disso. Ryan Coogler, além de entregar a temática de diversidade do filme, também entrega nas sequências de ação, esperadas em um filme como esse. As cenas de luta de Okoye (e de todas as Dora Milaje) são incríveis, a perseguição de carro que aparece nos trailers com T’Challa e sua irmã (pilotando um carro remotamente) é uma das melhores cenas de ação do MCU. No entanto o filme não é perfeito, o embate final entre herói e vilão não tem tanto impacto e algumas cenas de luta são tão caóticas que parecem ter saído de um filme da trilogia Bourne. Mas apesar de suas falhas o filme funciona muito bem.

Cada novo filme do MCU é uma oportunidade para a Marvel tentar algo novo, nos últimos anos tivemos filmes de comédia (Guardiões da Galáxia), de assalto(Homem-Formiga), de espionagem (Soldado Invernal) e seja o que Thor: Ragnarok tenha tentado ser. Com Pantera Negra, Ryan Coogler não tentou atacar um novo gênero, mas ele sem dúvida aspirou a fazer algo maior do que apenas mais um filme de herói com uma pitada de humor. Considerando o quão divertido e inspirador foi o resultado eu diria que ele conseguiu e me deixa esperançoso para o que a Marvel pode trazer de novo para o futuro de seu Universo.

NotaPanteraNegra

Vinicius Manzano
Designer / Palestrinha

Sobre o Autor

O designer que é a grande mente por trás do Nerdpub poderia estar comandando o mundo se só tivesse ido embora do bar mais cedo.

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