Cinema | 20 de dezembro, 2019

A Ascensão Skywalker | Crítica

A mais de 40 anos George Lucas deu inicio a todo um universo com o lançamento de Star Wars. O filme foi um sucesso instantâneo, em parte por ser algo familiar porém diferente. George Lucas bebeu de clássicos do Western e dos filmes de Akira Kurosawa para dar forma a sua galáxia mas sempre com sua própria personalidade. Dessa forma o DNA de Star Wars sempre se baseou em beber do passado para lançar algo novo ao futuro. Por conta disso o fim da saga, concebido por J. J. Abrams, em Star Wars: A Ascensão Skywalker com sua constante reverência ao passado deveria se encaixar, ao menos tematicamente, na visão de Lucas.

Porém essa reverência não parece estar respeitando o passado da série, mas sim se escondendo atrás de sua grandiosidade ao invés de elevá-la ao futuro.

Quando esta nova trilogia estava sendo iniciada com O Despertar da Força em 2015, os fãs estavam com medo do que J.J. Abrams faria com a franquia. Alguns anos antes ele havia ressuscitado Jornada nas Estrelas com uma roupagem mais moderna e muito diferente de sua forma original. As suas alterações do canon de Jornada das Estrelas incluiram mudanças de tom e até mesmo de origem de personagens. Embora uma parcela to público tenha gostado dos filmes (eu incluso), uma outra parte ficou receosa caso J. J tentasse fazer a mesma coisa com Star Wars.

Mas Abrams seguiu por outra vertente. O Despertar da Força abraçou completamente a nostalgia sendo, basicamente, um remake do Episódio IV para uma nova geração. Metade sequência, metade remake, O Despertar da Força introduziu um novo Império na forma da Primeira Ordem, um novo Vader (nunca será), um novo Luke Skywalker, um novo R2-D2 com BB-8 além de vários outros elementos familiares a fãs de longa data. A crítica, tanto especializada quanto dos fãs, foi positiva sobre um filme que almejava entregar Star Wars a uma nova geração de jovens heróis. Pela primeira vez dando a oportunidade dos fãs se verem dentro da franquia, pois assim como Rey idolatrava Han Solo e companhia, nós também crescemos vendo as aventuras deles.

Então veio Rian Johnson com seus Últimos Jedi que pendia muito forte no fator de entrega para uma nova geração, com vários momentos no filme dizendo abertamente para esquecer o passado, matá-lo se necessário. Essa visão subverteu várias expectativas e pedia dos fãs que eles aceitassem que a série estava evoluindo para além do drama familiar que definiu a trilogia original de George Lucas. O resultado disso foi um filme que dividiu opiniões, alguns criticando a mensagem do filme, outros sua execução e em alguns casos ambas as coisas. Já sabendo dessa reação, J.J. leva A Ascensão Skywalker novamente para o caminho familiar e nostálgico que o serviu tão bem em O Despertar da Força.

E isso é claramente notável no filme, pois assim como O Despertar da Força replica Uma Nova Esperança em personagens, conflitos e roteiro, A Ascensão Skywalker segue de perto diversos elementos de O Retorno de Jedi, de forma que fãs mais atentos poderiam antecipar várias das “surpresas” do filme bem antes delas acontecerem. É uma forma segura e tímida de criar um roteiro, uma que conscientemente reflete as experiências do expectador, afinal se eles gostaram disso da última vez, irão gostar agora certo? É o mesmo conceito de ser uma comfort food ou uma série que você reassiste sempre: A história é branda e previsível o suficiente para ser calmante e, nessa situação, as surpresas existem apenas nos detalhes que ligam todos os pontos da história.

No contexto do filme estes detalhes são principalmente novas habilidades que mudam completamente a dinâmica de vários dos conflitos. Os novos elementos mostrados podem inclusive irritar os mais puristas, mas são eles que movem a história através dos momentos do roteiro, que nos primeiros 20 minutos é tão frenético em suas trocas de locações que parece ter sido escrito por alguém com alguns litros de café no sangue. Além disso os fãs que se irritaram com os novos poderes da Força mostrados em Os Últimos Jedi podem se preparar para uma nova miríade deles aqui, que transformam a força ainda mais em uma “bala de prata” que pode resolver todos os problemas. Essas habilidades estão presentes nos dois protagonistas, Rey e Kylo Ren, já que o elo psíquico dos dois estabelecido no último filme é novamente explorado e utilizado para mover o roteiro em uma velocidade assustadora.

Esse ritmo acelerado é, em alguns momentos, um dos pontos altos de A Ascensão de Skywalker. Ele faz o filme parecer um tour por todos os grandes sucessos da galáxia de Star Wars, saltando rapidamente de um planeta e conflito para outro, apresentando novos aliados e inimigos. Essa velocidade no entanto não nos dá tempo para reparar nas falhas de roteiro ou notar que os riscos não são tão grandes para os heróis mesmo considerando que a galáxia inteira está em risco. Isso também não dá tempo para desenvolvimento de personagens, que continuam basicamente da mesma forma que terminaram o Episódio VIII, há muitos personagens para pouca tela.

Toda essa correria parece altamente arbitrária para os personagens. Logo no inicio do filme J.J Abrams e o co-roteirista Chris Terrio introduzem uma das coisas mais preguiçosas que se pode fazer no cinema: um MacGuffin que os personagens precisam encontrar para mover a história. Os protagonistas passam os dois primeiros atos do filme perseguindo esse objeto e sendo interrompidos por novos desafios que, na maior parte das vezes, são superados rapidamente. Essa forma de guiar a história faz parecer com que ninguém realmente se importe com o que os personagens estão buscando desde que eles estejam fazendo isso de forma pirotécnica e com diversas referências a trilogia original, desde personagens até falas copiadas diretamente.

O sentimento de muitas coisas estarem sendo atingidas em pouco tempo impede que A Ascensão Skywalker realmente desenvolva grandes temas. Ao invés disso ele nos lembra constantemente como foi interessante quando Luke enfrenta sua “versão maligna” na caverna em O Império Contra Ataca, ou quando Obi Wan continua guiando Luke do além na corrida final em Uma Nova Esperança, estes sendo apenas dois exemplos de referências diretas no novo filme. A Ascensão é o primeiro filme dessa nova trilogia a se apoiar somente nestes ecos do passado ao invés de realmente explorar novas idéias. O Despertar da Força, embora repita muito do Episódio IV, ainda é sobre como a história é cíclica e as batalhas do passado irão ser lutadas novamente no futuro por um novo grupo de idealistas que sabe muito pouco sobre o que foi aprendido no passado. Os Últimos Jedi foi sobre como deveríamos abandonar o passado completamente e aceitar que o futuro é mais importante.

A Ascensão Skywalker no entanto se preocupa muito mais em em mostrar como Star Wars é legal, como as nossas memórias dos filmes são legais e como as referências ao passado são legais. Mas toda essa preocupação em mostrar como o passado é legal faz com que tudo tenha pouco impacto para o futuro. Estamos nos movendo sempre de um planeta para outro, de um combate para combate para outro e assim por diante. Alguns desses embates são lindos de se assistir — uma sequência no meio de um mar em tormenta é maravilhosa e um dos melhores combates da série — mas a maioria deles não importa tanto para história, ainda mais em um ambiente onde diversas coisas feitas em outros filmes são rapidamente revertidas.

Abrams e Terrio tentam trazer um senso de grandeza para A Ascensão Skywalker, mas muitas dessas tentativas parecem terem sido feitas para os fãs e não para os personagens. Em um certo ponto, Rey afirma que ela é a personificação de todos os Jedis que vieram antes dela enquanto seu adversário anuncia ser todos os Sith. Em outro momento ela retorna a um lugar familiar para a série — mas que ela não possui nenhuma conexão pessoal, mas parece estar ali apenas para que o público possa vê-lo uma última vez. Existe um sentimento palpável ao longo de todo filme de que seus criadores estão tentando fazer o que consideram melhor para a Saga Skywalker, condensando uma homenagem a todos os filmes em um épico de quase duas horas e meia uma última vez.

Essa repetição e constante reverência ao material original é importante, mas ver as pessoas responsáveis por entregar o fim da saga reconhecendo sua inabilidade em movê-la a frente é uma forma muito triste da história terminar. Mesmo quando os personagens de A Ascensão Skywalker alcançam a vitória sobre o mal, o filme parece desajeitado, apressado e acima de tudo uma admissão de derrota criativa.

Vinicius Manzano
Designer / Palestrinha

Sobre o Autor

O designer que é a grande mente por trás do Nerdpub poderia estar comandando o mundo se só tivesse ido embora do bar mais cedo.
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